Por Samuel Ricarte, sob supervisão de Dênisson Padilha Filho
Ao som do berimbau, atabaque, pandeiro e o canto de uma voz potente, movimentos ferozes se disfarçam em ritmos graciosos para enganar os oponentes. A Capoeira funde a dança e a luta de forma inseparável. Historicamente, surgiu como estratégia de resistência dos escravizados africanos que desenvolveram essa dança como forma de preservar a sua cultura e como defesa pessoal.
Com o fim da escravatura em 1888 — Se podemos afirmar isso, visto que na sociedade brasileira há a herança escravista — formaram-se grupos urbanos que se apresentavam em rodas nas ruas. Sem empregos ou moradia, a pobreza levou à desordem; jornais da época sensacionalizavam os conflitos e, assim, alimentavam os estigmas de “perigosos” e “marginais”. Foi considerada crime pelo Código Penal de 1890, situação que durou até 1937, quando a Secretaria da Educação conseguiu um registro oficial que qualificava seu curso de capoeira como Curso de Educação Física. Em 26 de dezembro de 1972 a capoeira foi homologada pelo Ministério da Educação e Cultura como modalidade desportiva.
Em 2014, a UNESCO reconheceu a Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A Capoeira integra dança, música, luta e espiritualidade, transmitindo valores por meio de rodas, cantos e movimentos.
Por meio do projeto Murais UFBA, que visa à revitalização dos espaços coletivos da Universidade pela arte, o artista Esdras Oliveira, bacharelando em Artes Visuais na Escola de Belas Artes da UFBA, apresenta a obra Dança, Música e Resistência: A tradição da Capoeira, onde representa figuras emblemáticas da cena da Capoeira.
“Eu quis trazer uma proposta que fizesse sentido para estar presente em um ambiente acadêmico. Gostaria de trazer algo da nossa Bahia, a Capoeira é um patrimônio cultural imaterial da humanidade, que tem em cidades como Salvador e no Recôncavo grandes palcos para florescer essa prática, por isso quis trazer quem foram os mestres que são expoentes e difundiram a prática e quem está levando a capoeira adiante”, disse o artista Esdras Oliveira.
Em breve, o mural do artista Esdras Oliveira vai ter incluído um QR Code para dar acesso a estas e outras informações.
Homenageados
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Ao centro, uma alegoria que representa a figura feminina, negra, simbolizando a Bahia, personificando uma grande mãe da nossa terra que conta aos seus filhos, sobrinhos, netos e agregados a história da Capoeira, mostrando suas principais vertentes, mestres e mestras, fazendo lembrar a todos essa arte que funde música, dança e resistência.
Mestre Bimba, nascido Manoel dos Reis Machado em Salvador-BA em 23 de novembro de 1899, falecido em 5 de fevereiro de 1974, aos 72 anos. Foi responsável por fundar a primeira escola de capoeira do Brasil. Graças a ele, a capoeira foi reconhecida como esporte nacional brasileiro e passou a ser praticada em academias, atraindo pessoas de todas as classes sociais. É o criador da Capoeira Regional, tendo desenvolvido um método de ensino estruturado e focado na eficiência da luta.
Mestre Pastinha, nascido Vicente Ferreira Pastinha em Salvador-BA em 15 de abril de 1889, falecido em 13 de novembro de 1981, aos 92 anos. É o guardião e o maior ícone da Capoeira Angola, o estilo que preserva as tradições rituais. Criou a primeira escola voltada exclusivamente para esse estilo e formou uma geração de mestres que levaram seus ensinamentos adiante. Viveu com dignidade e jamais se afastou daquilo que mais amava. Morreu em abandono, cego e paralítico, vivendo em condições de extrema miséria e sem o devido reconhecimento em seus últimos anos.
Bibinha, 43 anos, nascida Jubenice Santos em Salvador-BA em 9 de abril de 1983. Estudou no colégio Carlos Santana, onde começou sua trajetória na capoeira com 11 anos. Em 2 de dezembro de 2018 foi graduada contramestra.
"Um dos meus maiores objetivos é valorizar minha comunidade, o lugar de onde eu vim, mostrar que o Nordeste de Amaralina não é um lugar que apenas a violência chegou, é um lugar rico em cultura, de pessoas maravilhosas, onde a cultura ferve, que mulheres que alcançam, que vencem. Então, eu quero ser um exemplo para todas aquelas meninas do Nordeste de Amaralina que estão ali achando que não podem, porque elas podem tudo", disse Bibinha.
Representação de muitas figuras femininas de diferentes épocas
A imagem acima, no entanto, figura Maria Filipa, conhecida como Maria Doze Homens, nascida na Ilha de Itaparica-BA, falecida em 4 de julho de 1873. Foi uma líder popular, pescadora e marisqueira negra, fundamental na Guerra da Independência do Brasil na Bahia. Conhecida como Maria Doze Homens, figura lendária da capoeira baiana, muitas vezes associada a Maria Felipa de Oliveira, heroína da Independência da Bahia no século XIX. Ficou conhecida por sua força e coragem ao enfrentar e derrotar doze homens com capoeira, tornando-se um símbolo de resistência feminina, justiça e luta popular.
